Nem tudo o que acontece é bom.
Há algo mais clichê do que escrever num quarto de hotel à noite? Solicitei uma máquina de escrever à recepção e eles disseram "nove reais".
Quando eu for embora daqui, a lembrança mais cara que terei é de pessoas correndo pela cidade. A topografia e o enorme perímetro das quadras parecem feitos para isso. Dá para se sentir pequeno diante de tudo. É verdade que a impressão se dissipa à medida que você chega mais perto do que o apequenou, mas mesmo assim é algo que assombra.
Por coincidência ou não, trouxe o Cidade Aberta para ler e o termo define bem Brasília. O livro é bom até onde li.
Não entendo o motivo de todos os hotéis cobrarem pelo acesso à internet. O valor é simbólico, "nove reais" diários, mas é uma preocupação indesejada. Ou menos uma preocupação do que um aborrecimento.
Brasília é uma cidade extremamente impessoal, mas é uma impessoalidade diferente da que se sente em São Paulo. Reconheço a diferença, mas sou incapaz de explicá-la. Talvez seja o fato de que há gente de todo lugar e uma disposição para recomeçar a vida que reprime qualquer nostalgia. Sou eu especulando.
"Não sente nada, só vazio."
Até entendo quando dizem que a capital pertence à Grande Goiânia.
Da primeira vez que vim, falei no twitter que me deu vontade de jogar Bioshock e ouvir The Smiths. No caso da banda, não consigo entender muito bem o vínculo que surgiu, apesar do rock oitentista todo, mas ele claramente existe. Uma passada no Conjunto Nacional é quase uma viagem a 1985. De toda forma, a remissão ao jogo faz mais sentido do que à banda.
Choveu nas duas vezes em que vim aqui. Não posso descartar a cidade pelo calor e pela baixa umidade, como muita gente faz, porque não vim na época de estio. Achei-a quente, mas longe do insuportável.
Mas entendo quem se sente sufocado. A cidade é tão cara quanto São Paulo, o transporte público é lendário, de só ouvir falar, e a ideia de um enorme deslocamento para fazer o que quer que seja é desanimadora.
Não sei se foi todo um processo ou uma imensa coincidência, mas somatizei forte nesse último mês. Vi meu primeiro cabelo branco (houve quem minimizasse o fato e dissesse que aquilo era apenas um "cabelo claro"); quebrei um dente por bruxismo extremo; engordei um par de quilos; dormi extremamente mal com e sem motivo; e achei que estava enxergando mal, mas depois passou.
Visitei o Congresso Nacional. Participei da visita guiada com uma família mineira – pais e filho. O jovem me perguntou se eu queria uma fotografia. Depois ele a enviaria para mim por e-mail. Respondi que não precisava e ele permaneceu à distância depois disso. Achei os plenários pequenos, o que só condiz com a impressão de imensidão que se desfaz de perto.
Enquanto quatro pessoas se dispunham a visitar o Congresso Nacional, no Palácio do Planalto havia uma centena de turistas à espera do tour. Entendo.
Não deveria dizer o que aconteceu no aeroporto de Brasília.
O que aconteceu no aeroporto de Brasília foi o seguinte: abri o zíper da mochila dentro da baia do banheiro e uma caneta caiu no chão, ricocheteou e correu mansa para a cabine vizinha. O que você faz numa situação dessas?
Eu saí da minha baia e a outra estava fechada. Eu não fiz nada. Era uma boa caneta.
Ontem, 1º de dezembro, foi o dia mais esquisito do ano.
Não sei se volto a Brasília. Para falar a verdade, ainda não sei o que estou fazendo aqui dessa vez... Foi um grande desperdício de tempo, dinheiro e saúde mental. Se não me engano, o personagem recorrente no clichê de quem escreve em quarto de hotel está sempre à beira da loucura completa.
Nada do que acontece é bom.