Olá.
Eu costumava me angustiar quando o arquivo de um dos meus blogues ficava com um buraco. Não mais. Isso já aconteceu em setembro e ocorreu novamente no mês passado. Pensava que isso causaria problemas ao meu biógrafo, coitado. Ele veria a falta de arquivos e teria uma das duas ideias: Ou o mês foi morto e ele não fez nada, ou, ao contrário, foram meses tão exaustivos, emocionantes e/ou incríveis que não teve tempo de escrever. De toda forma, ele finalizaria seu pensamento com um "Que grande cara foi este Luiz." Provavelmente, no segundo caso, ele nutriria a ilusão de que seu biografado estava ali, fora da caixinha, vivendo. Por isso, recorro a este post para um esclarecimento. Se não estou enganado, em setembro eu estava de férias, nas quais não fiz nada de relevante. No mês passado, tive quinze dias de trabalho, nos quais pratiquei à perfeição a rotina de "busy doing nothing", e outros quinze de recesso e férias, nos quais viajei. O marasmo do cotidiano dos primeiros quinze dias e os aperreios e emoções dos outros quinze me impediram de escrever. Desculpe, biógrafo.
Já virou uma tradição a viagem a países sul-americanos em janeiro. Ou melhor, não sei se uma tradição pode ser criada a partir de três anos não-consecutivos. Aí me lembro de alguns lugares que utilizam critérios bastante duvidosos para alardear sua experiência e transmitir alguma confiança. O administrador do imóvel que eu alugo tem como lema "Tradição desde 1982!". E um dos restaurantes por quilo no qual eu almoço possui algo parecido: "Estamos aqui desde 1989. Pode confiar!". Não me agrada a ideia de ser mais antigo do que a tradição. Pessoalmente, preciso dizer ainda que não gosto muito do restaurante que citei, apesar da comida ser boa. É paradoxal, não? Mas odeio a impressão de que estão fazendo um favor para você, as empregadas com uniformes horríveis e crocs e ainda o preço de $3,50 por uma latinha de coca-cola. Mas a comida é boa. Já falei isso? Enfim... E o restaurante é adventista, por deus! Deveria ser algo mais humanitário ou sei lá qual é a palavra certa. Mas estou deixando as emoções falarem mais alto... Preciso me acalmar.
Há tempos em que fico bastante frustrado com o jeito de algumas pessoas lidarem com o público, ainda que não seja a pessoa mais educada do mundo, é claro, e tome algumas atitudes bastante idiotas de vez em quando. Um exemplo: Chego ao prédio logo depois de uma pessoa. Esta percebe minha chegada, detém-se e segura a porta do elevador para subirmos juntos. Instintivamente, sem hesitar por um instante sequer, subo pela escada contígua, pulando degraus, e deixo a pessoa com a porta na mão, esperando o nada. Aliás, no final do ano passado, durante um almoço solitário, fiquei pensando em qual seria a resolução para 2011, aquela que poderia mudar minha vida, e cheguei a uma conclusão meio óbvia: "Serei mais amiguinho das pessoas." Logo depois, fiz que não vi duas pessoas conhecidas, olhando para pneus dos carros que passavam, para o chão, para o outro lado, fingindo autismo. É muito complicado...
Não acreditarão se eu disser que este post é assim mesmo, repleto de não-assuntos que surgem, desaparecem e reaparecem do nada. Sim, é de propósito. Sobre a viagem, eu sempre fico melancólico depois que retorno a São Paulo. Talvez os problemas que mais me perturbam hoje na cidade estejam todos lá na cidade visitada - o trânsito caótico, o calor terrível, a falta de educação das pessoas. Mas tendo a filtrar as experiências vividas por uma ótica de encantamento. Mesmo numa cidade como Buenos Aires, que possui um trânsito bagunçado, para ser bastante generoso, não me sinto tão ameaçado ao atravessar uma rua. Já aqui, no dia seguinte a meu retorno, quase fui atropelado umas três vezes. Um E.T. que chegasse à cidade e observasse as faixas brancas horizontais dispostas lado a lado e pintadas no asfalto definitivamente ficaria intrigado com aqueles grafismos sem utilidade aparente.
É, parece que voltei a não gostar de São Paulo. Que coisa.
Há alguns anos alimento a ideia de mudar de cidade, mas sempre penso nos problemas que a mudança irá me causar. Como sou meio ingênuo, tenho a esperança de que deixarei tudo o que me perturba na cidade, mas é claro, evidente e cristalino, tanto como é certo e exagerado, de que os problemas irão comigo para o novo endereço. Sem falar que a única possibilidade concreta de mudança, a meu ver, seria prestar um concurso qualquer e abandonar a faculdade. No momento, gostaria muito de evitar a fadiga. Daqui a alguns dias, numa experiência antropológica que julguei interessante para ocupar meus dias restantes de férias, viajarei ao Nordeste para passar uns dias na praia. Na minha concepção otimista, passaria os dias lendo os livros levados, dando mergulhinhos no mar, descansando muito e tomando água de coco, atividades que praticaria randomicamente. O bichinho da realidade, todavia, já me alerta para as perturbações diversas que terei. Que não conseguirei ler duas páginas de um livro sem ser molestado por um vendedor (na melhor das hipóteses...); que o mar estará impróprio para mergulhinhos; que haverá diversos problemas de infra-estrutura que me impedirão de descansar; que a água de coco me causará diarreia. Etc. Mas mesmo assim vou... Não existe nada mais triste do que passar as férias em São Paulo. E vai que me encanto pela tal praia nordestina e penso: "Oh, como passei tanto tempo sem conhecer isso?"
O problema é acalmar o sistema digestório (disseram-me que é assim que se escreve agora; fiquei chocado). Foi bastante complicada a última viagem por conta destes transtornos, a ponto de finalmente recorrer a uma farmácia no estrangeiro. O mais incrível foi me fazer entender com os farmacêuticos. Não costumava ficar enjoado em viagens há um bom tempo, mas isso aconteceu com uma frequência bem maior do que o desejável nessa última vez (ainda que não tenha chegado às "vias de fato" em nenhuma ocasião). A ida a Valparaíso, nesse sentido, foi uma das viagens mais terríveis da minha vida. Não sei bem o que aconteceu, mas, segundo testemunhas, estava "pálido e quase morrendo". Achei engraçado. Por um bom tempo, eu entrei em ônibus, aviões e trens todo folgazão, fazendo dancinhas. Agora é sempre uma incógnita. Pode não acontecer nada, mas também pode ocorrer de eu ser forçado a usar indiscriminadamente alguns comprimidos de dimenidrato, que me deixam à beira da catatonia, e pequenos golinhos de água com gás (dica de uma aeromoça da TAP, que deus a preserve). Por via das dúvidas, jogo tudo na conta da gastrite, que me deixa indisposto e causa tudo isso. Acho que fico mais preocupado com a possibilidade de passar vexame do que pelo mal-estar em si. É um motivo besta, pensando bem, porque há grandes possibilidades de não ser reconhecido a uma esquina de distância de uma vergonha hipotética. O que falar então de algo que ocorre em outra cidade de outro país? Mas sou um péssimo fisionomista e nem todo mundo deve ser assim.
Lembrar-me-ei dessa coisa toda quando me oferecem uma passeio qualquer "com emoção" no Nordeste. E é isso. Falaria dos cachorros santiaguinos, que realmente estão em todo lugar, sempre dormindo, mas já escrevi demais.