colapso

 

you're living all over me

Meus interlocutores já estão cansados de ouvir os exemplos que uso para comprovar minhas teses. Quando inicio as histórias, alguns bufam, outros reclamam ("de novo? já ouvi a história do cara de cavanhaque no sesc pompeia umas vinte vezes!") e há aqueles que inventam um compromisso, qualquer um, para se livrarem de escutar pela enésima vez o mesmo conto.

Uma das minhas trôpegas historinhas-com-moral prediletas está baseada no fato de que não sei o tempo certo de parar com uma coisa qualquer. É sempre antes ou depois do aconselhável. São cursos abandonados pela metade, o fato de ter sido a última pessoa no mundo a comprar um tamagotchi, namoros com três meses de sofrimento estendido e desnecessário etc. etc.

A parábola é a seguinte: estou no show do Teenage Fanclub, sozinho, em 2004 (ou 2005), no Sesc Pompeia. O espetáculo é bom, o clima é de comoção e todos cantamos aquele power pop de qualidade. Eis que eu avisto um cara com cavanhaque. Ele tem uns quarenta anos, talvez mais, veste-se mal, fora de moda, e está sozinho, encostado numa pilastra. Ao contrário de todos os outros que cantam e dançam - e de mim, que olha aterrorizado para ele -, o sujeito, já meio calvo (esqueci de mencionar), encara o nada enquanto segura uma cerveja.

Ele está absolutamente deslocado. Sabe quando você vê algo e aquilo estraga o seu dia (como uma mulher croata afogando cãezinhos, por exemplo)? Pois bem, a ilusão de que aquela vida de shows duraria para sempre terminou naquele momento. O Luiz 24 hour party people morreu ali, em 2005 (ou 2004). Não duvido que estivessem tocando "Can't feel my soul" naquele exato momento...

Desde então, sempre vem à mente o mantra "Preciso envelhecer com dignidade, preciso saber a hora de parar...", mas é claro que não consigo. Havia jurado que o espetáculo do Radiohead seria o último, com tudo de apoteótico que a oportunidade oferecia, mas o fato é que sou um homem fraco, indigno e meio exagerado. Embora tenha diminuído consideravelmente a frequência, continuo indo a shows. Como diz Michael Corleone na parte final da trilogia: "Just when I thought I was out... they pull me back in."

A probabilidade de me tornar o triste sujeito calvo e de cavanhaque do show, que bebe cerveja (prefiro vinho) e está rodeado por centenas de jovenzinhos de vinte e poucos anos (ver IT Crowd S04E03), é real. Estou bem perto do ponto de assistir a uma banda enquanto estou escorado a uma parede. Isso, aliás, não é nenhuma novidade. Já em 2003, durante o Tim Festival, eu fiquei tão extenuado com a maratona de shows que acabei vendo o último deles ancorado a uma mesa de som, com as costas em frangalhos. Nos últimos tempos, eu tenho me exasperado antecipadamente ao pensar em todas as atribulações que terei que enfrentar. De vez em quando ainda ajo da maneira "correta". Por mais que desejasse, jamais me deslocaria a Itu, por exemplo. Por outro lado, imagino aquele Planeta Terra em novembro e tenho gana de rasgar o bilhete (número de série: 00013, pfff...).

Mas tenho que ir. "Se eu não vir o Pavement..."

"I trust you'll tell me if I am making a fool of myself". Para quem mantinha um cartaz com esta frase escrita ao lado de um espelho, é preciso. Mas não dá mais para fazer loucuras. "Vamos crescer, gente!" - talvez essa frase faça mais sentido hoje. Aí, para me contradizer, eu me lembro de que comprei ingresso para um show do Pavement em setembro, em Nova York, com um ano de antecedência, quando não havia a mínima esperança de que eles viessem ao Brasil, e não há qualquer condição de fazer uma viagem dessas neste momento (há a faculdade à qual eu quase nunca vou, a própria preguiça de fazer uma viagem longa, as restrições orçamentárias, a falta de visto, o brasileirão pegando fogo; desculpa é o que não falta). Nessas horas, ao constatar que não sei mesmo a hora de parar (inclusive com este post e seus parênteses, percebam...), eu deveria olhar para o cartaz imaginário, "Vamos crescer, gente!", e chorar encostadinho nele.

Para finalizar, vejo que o Dinosaur Jr. fará shows em São Paulo numa terça e numa quarta. Ir aos dois seria loucura (a faculdade, as noites mal dormidas, as restrições orçamentárias, o brasileirão pegando fogo etc.), mas deixar de ir nunca esteve em cogitação. Escolho o de terça. Não vou contar em detalhes a epopeia que foi a compra do ingresso (ainda não o tenho em mãos), mas envolveu uma falta à faculdade para ir à Fnac (sistema fora do ar), outra para ir ao lugar do show ("só amanhã, viu?"), centenas de consultas ao site de venda ("eu me recuso a pagar esta taxa de conveniência. vai dar, vai dar..."), até finalmente ver um número assustador ("como assim o número reservado do meu bilhete é 494? será que são 500 ingressos? jesus, preciso comprar imediatamente!") e finalmente adquiri-lo com todas as taxas possíveis e imagináveis...

E se arrepender quase instantaneamente, mesmo sabendo que o show será incrível. E eram 700 ingressos...





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