Passei ao largo da febre das figurinhas. Enquanto pessoas da faculdade, vizinhos e insuspeitos senhores do meu trabalho colecionavam e trocavam seus cromos, eu olhava para as cenas de câmbio com desdém. Há quem diga que existe um apelo nostálgico na coisa toda. Há ainda quem fale que só me comportei dessa maneira porque jamais completei um álbum na minha vida (lembre-se: eu desisto de tudo). De todo modo, não me apetece. É claro que há um lado positivo nas trocas de repetidas, pelas "possibilidades sociais" trazidas (blé), o que, para mim, seria a única razão para sentir alguma ínfima vontade de comprar um álbum. Mas resisti bravamente, apresentando como argumentos o gasto total de cerca de 100 reais para completar o álbum (considerando que não houvesse repetição) e o fato de que, aos 31 anos, eu me sentiria um tanto ridículo na função toda. Eu desistiria de completá-lo e encararia o encarte vermelho e incompleto como mais um lembrete.
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Pessoas que odeiam futebol devem sofrer nessa época. Após os jogos do Brasil, ouvia-se cornetas por horas a fio. É meio terrível saber que não há possibilidade de NÃO saber de determinadas coisas. Obviamente não comprei vuvuzelas, bandeirinhas, rojões ou qualquer coisa do tipo. Não abri nenhum blogue para falar a respeito da copa, como fiz em 2006 (época em que o superego claramente foi passear). Em meados do mês passado, havia ao menos umas dez bandeiras brasileiras dependuradas na frente do meu prédio. A portaria ainda está repleta de adereços verde-amarelos (para lembrar da derrota não há nada melhor). Numa parede do saguão há uma enorme tabela da copa feita de várias cartolinas. Em frente a ela, num mural, estão as fotos de vários condôminos vestidos com a amarelinha. Todos, com exceção do viúvo do 23, sorriem. O velho perdeu a mulher recentemente, mas está vestido com o uniforme brasileiro.
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Para que não digam que tenho um coração de pedra, fiquei triste com a derrota brasileira e levemente comovido nas derrocadas paraguaia, uruguaia e argentina. De longe, aqueles minutos finais da prorrogação de Uruguai x Gana foram os mais inacreditáveis de toda a copa. Desde que comecei a ler o
Impedimento anos atrás, eu não consigo torcer contra um time sul-americano. Tornou-se quase uma questão de
nós contra
eles. Aliás, falando no meu blogue de futebol preferido, todos os textos feitos em terras uruguaias, como
este, ficaram muito sensacionais. O pior é descobrir que o Iuri Müller, autor deles, tem DEZENOVE anos. Fiquei incrível quando li isso.
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Falei mal das figurinhas, mas não resisti aos dvds. Aí a lógica toda vai para o espaço, afinal cada um dos quinze discos, à exceção do primeiro, custa vinte reais. Daria para completar dois álbuns e ainda sobraria algum para a vuvuzela... E a maior parte dos filmes oficiais é horrível. O filme de 1970, por exemplo, traz a história de um menino loiro mexicano (!) e seu sonho de conhecer os jogadores do mundo todo. É verdade, porém, que estes vídeos possuem a mesma peculiaridade de um filme pornô: a história não importa. São as cenas dos jogos que valem a pena, mesmo quando a edição não ajuda. A dublagem é bem ruim e não há opção de mudança. Além disso, alguns filmes foram claramente extraídos de um VHS. O da Copa de 1994, Todos os corações do mundo, o melhor de todos eles, possui até aquelas ranhuras na imagem que são típicas de uma fita muito gasta.
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1994... Sinto saudades daquela copa. Tenho poucas lembranças dos torneios anteriores. Não me lembro de nada de 1982, obviamente. Lembro-me de algumas coisas de 1986 e, curiosamente, de quase nada de 1990 (acho que estava ocupado com outras coisas à época...). Mas me lembro muito bem de 1994 e de vários jogos, brasileiros ou não. Foi a única copa que acompanhei com paixão, antes de sucumbir ao inevitável cinismo que veio com a idade adulta. E foi uma época boa pessoalmente. Talvez por isso eu tenha tão boas memórias desse certame (que foi ruim tecnicamente, mas... e daí?). Esses intervalos de quatro anos são bons parâmetros para acompanhar as mudanças da vida. Um sujeito escreveu em algum lugar que, aos 40 anos, somente lhe restavam umas dez copas de vida e isso lhe doía um bocado. É um jeito de se ver as coisas.