Então temos que nos sujeitar a que nos gritem na rua, "o senhor vai ver como vai parar longe" e outras coisas no género. Por outro lado, quando uma pessoa publica qualquer coisa, tem naturalmente de ter presente que não pode regulamentar isso. Realmente seria trágico. Isso reflecte exactamente como é tudo. Não há nada a fazer, tudo consiste em mal-entendidos. E a que nos mijem em cima, a isso também a gente se habitua no decorrer dos decénios. Pois é, uma pessoa oferece-se provavelmente como árvore. E vem os cãezinhos e fazem o serviço. Mas ainda nenhuma árvore secou por nela mijarem.
Pois é, e então penso que é horrível, mas uma pessoa precisa, é necessário... é necessário ter contactos. Não pode ser de outra maneira, mas mesmo poucos serão sempre mais que suficientes. E assim cada um vai tricotando o pulôver da sua vida, um põe-lhe mais coraçõezinhos e outro menos, com mais malhas caídas ou menos, e no fim fica tudo malfeito e muito apertado e tem buracos, e ainda antes de uma pessoa o acabar já a parte da frente foi roída pelos ratos e pelas traças, a peça de luxo já se foi antes de estar pronta, e Nosso Senhor diz então "serve!".
Quando uma pessoa está só durante muito tempo, quando se habituou à solidão, quando se adestrou à solidão, por toda a parte onde, para outros, não há nada se descobre cada vez mais.
De momento eu não suporto ninguém. E só a ideia de que aí pode vir alguém... Brrrrrrr, é de facto horrível, não se pode suportar - "você tem de lá estar" - em parte nenhuma se tem de estar, em parte nenhuma e para nada.Em conversa com Thomas Bernhard - Assírio & Alvim, pp 21-22