Quando fui a Montevideo, em janeiro, só me senti levemente ameaçado uma vez durante toda a viagem. Isso ocorreu numa das inúmeras caminhadas à beira do rio, debaixo de um sol inclemente. Depois de um tempo de caminhada, avistei à minha frente quatro adolescentes meio esfarrapados, sendo que um deles estava com uma garrafa de bebida barata na mão.
Desconfiei. Logo os alcançaria se mantivesse minha velocidade habitual. Convém dizer que tenho um passo bastante acelerado enquanto ando nas ruas e isso às vezes é um problema. Posso assegurar a vocês que já desfiz um namoro, dentre outras razões, porque a outra pessoa andava muito devagar. Mas isso não vem ao caso agora...
Como estava meio fantasiado de turista e carregava uma mochila com alguns pertences, dentre eles uma câmera fotográfica vagabunda e meus documentos, decidi atravessar a pista marginal. Meu propósito era ultrapassar os meninos enquanto estivesse do outro lado e voltar à calçada original alguns metros à frente deles. Não sei se essa é uma atitude normal, mas eu faço isso sempre (especialmente quando vejo alguém conhecido à minha frente).
Foi uma má escolha porque, do outro lado da rua, a calçada era gramada e repleta de cacos de vidro. Nada mais natural... Dessa maneira, tive que tomar muito cuidado com meus passos. Olhando para baixo, separando os brilhos suspeitos da grama crescida, eu vi um pedaço de papel dobrado. Parecia uma cartinha. Apanhei-a:


Confesso que fiquei parado no ponto em que a apanhei e olhei ao meu redor para ver se alguém poderia ser o dono dela. Claro que era inútil. Primeiro, porque não havia ninguém além de mim naquela calçada. Segundo, porque, ao que parece, a carta é antiga (deve ser de 2002, não?). Elaborei inúmeras historinhas a respeito das personagens da carta, mas contar alguma delas deve ser tão interessante como relatar o sonho que eu tive ontem à noite.
Quando decidi retornar à calçada original, os adolescentes haviam desaparecido. Eles estavam lá embaixo, à margem do rio, sentados numas pedras. Uns fumavam e outros bebiam. Todos riam.
Senti inveja.